sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Só Risos...








Nas pontas
duma ponte movel
solitários e valentes
dois dentes,
que sós restaram,
resistem contentes
e sorridentes!





terça-feira, 22 de agosto de 2017

Saudades






no começo
em você 
só ví encantos
hoje sozinho 
ando pelos cantos
com tantos desencantos
não mais canto
inspiro,aspiro,respiro
no meu pranto
saudades!





domingo, 30 de julho de 2017

FRANCISCO










O Papa Francisco em sua primeira aparição pública,na janela do apartamento papal,que dá vista para a grande Praça de São Pedro,em Roma,no primeiro domingo após sua eleição,as 12 horas em ponto,diante de uma multidão de fieis,que acorreram para rezarem com ele o Angelus, surpreendeu a todos com sua voz suave,com um Buongiorno (bom dia) e fez questão de parar para ouvir a multidão responder Bom Dia! Ao final de sua prédica e oração,deu a benção e desejou a todos Buon Pranzo (bom almoço) e ao final depois dos aplausos, um Arriverdeci (até logo).
Domingo ultimo,novamente nos lembrou ,em sua fala simples e ao mesmo tempo inovadora as palavras mágicas da boa convivencia e do respeito mutuo:Per favore (por favor), Grazie(obrigado), Permesso(com liçença) etc...
Simples assim, foi preciso o Papa Francisco a nos lembrar,mais uma vez,aquilo que deveria ser corriqueiro,e de uso diario entre as pessoas!






quinta-feira, 20 de julho de 2017

O TESTAMENTO



 
Quando eu morrer quero um caixão de madeira crua, com seis alças e sem brocados.
Vistam-me com o terno cinza,camisa branca e a gravata azul.
Derramem sobre mim, o resto do meu perfume Portinari.
Nada de flores, nas mãos apenas um ramo de oliveira verde.
Que ardam nos cantos quatro velas de cera de abelha com odor do mel.
Em câmara ardente ouçam minhas músicas preferidas para a ocasião:
O Adagio de Albinone e As Quatro Estações de Vivaldi e Don Giovanni de Mozart.
Que silenciem as línguas dos malidícentes!
O cafezinho estará liberado, mas sem açucar!
No cortejo até a cova, nada de carrinhos de empurrar ou motorizados.
Quero seis homens assim escolhidos: nas alças da cabeceira meus dois filhos,nas medianas meus dois netos,e nas derradeiras o mais novo deles a direita e a esquerda aquele que me amou por ultimo!
O choro contido será liberado para as mulheres,porém as lágrimas das três que amei em vida, que já partiram antes de mim e lá me aguardam.
Desejo que na hora das despedidas finais,chova copiosamente e todos saiam depressa,sem olharem para trás,deixando-me em paz na cova rasa!
Ao retornarem, passem antes pela minha casa, lá não encontrarão dinheiro ou joias,mas repartam entre sí, minhas telas,desenhos,poemas, livros,discos,etc...
Em tempo,se encontrarem entre páginas de algum livro, uma carta de amor e um poema a mim dirigidos não os leiam, por favor lancem ao fogo! 
Parafraseando o poeta termino: aqui me calo,aqui me fino!





O ANJO DA MORTE








Nesta noite,visitou-me inesperadamente,o Anjo da Morte,pegou-me assim de surpresa,meio decomposto,pois com este calor dos últimos dias,estava eu em pêlo.
Foi logo perguntando:porque você saiu da fila?
Bem eu ,meio que gaguejando respondi que tinha desistido de ir (cá entre nós nestas horas é preciso ser esperto!) pois tinha ainda muitos sonhos a se concretizarem,telas em branco a serem pintadas,poemas em andamento para publicar,livros para ler e refletir,etc e se eu fosse naquela hora ficaria tudo inacabado,inclusive o meu testamento que só tinha rascunhado,faltando confirmar ainda alguns beneficiários,etc...desconversei e ofereci-lhe chá verde e biscoitos de gergelim...não queria ir muito a fundo no assunto.
Ele aceitou,e enquanto eu preparava a bandeja,com a xícara,mel...ele disse-me: nos últimos dias muitos jovens tem furado a fila,querem ir antes,é a pressa,não sabem esperar a vez,querem tudo de imediato,e o pior é que conturbam a escala e fazem com que os velhos como voce fiquem embromando e ganhando tempo! (ele era também muito esperto ao contrario)
O chá foi servido,os biscoitos deglutidos,ele agora descansado estava calmo,eu dei graças a Deus esperando ele despedir-se, quando de surpresa pediu para examinar minha boca, aberta contou meus dentes e disse, dos 32 voce ainda tem 28 ,parabéns! (não tinha notado que alguns já são postiços).
Depois despediu-se e falou assim:
Volto daqui há 28 anos,mas ai não vai ter desculpas não,terá que ir mesmo...e desapareceu no breu da noite!
Bom até lá tenho tempo para preparar-me melhor e quem sabe conseguir ainda um tempo extra!





sábado, 15 de julho de 2017

Ricardo









Ricardo Nascimento
fruto dos contrastes
da arvore da exclusão 
morador de rua
carroceiro,papeleiro, sucateiro...
nomade urbano
por um pedaço de pizza
numa esquina baleado
fria e covardemente
encontrou a morte
na pauliceia desvairada
suja e linda
pacifica e violenta
generosa e egoista
assassina e acolhedora
sintese do bem e do mal
Amém!













quinta-feira, 29 de junho de 2017

Viagem




Numa tarde 
d'um dezembro distante
na velha escada de ferro  
que desce do Jardim da Luz
para a plataforma dos trens
destinado aos suburbios
da pauliceia fria e desvairada 
nossos olhares cruzaram-se
num oi prá cá,um outro prá lá
e já estavamos conversando
nos reconhecendo... 
num embarque apressado 
nos trilhos paralelos do tempo
d'uma viagem sem fim
de paisagens doces
e paragens amargas
em estações distantes
com avisos,sinais,apitos...
num abre fecha de portas
no entra e sai dos viajantes
ansiosos por chegar!














domingo, 11 de junho de 2017

Fraternidade dos Irmaozinhos de Jesus - Memoria








Fraternidade dos Irmãozinhos de Jesus - Memoria


Corriam os anos sessenta do século passado,o ABC Paulista industrialisava-se rapidamente e por necessidade de mão de obra atraia levas de migrantes vindos de todo Brasil a procura de trabalho,a industria automobilistica era o carro chefe de todo este processo.

A Diocese de Santo Andre,criada em 1954,que abrangia as sete cidades,Santo Andre,São Bernartdo,São Caetano,Maua,Diadema,Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra tinha seu primeiro bispo Dom Jorge Marcos de Oliveira,oriundo do Rio de Janeiro,que passaria a ser conhecido como o Bispo dos Operarios, tamanho o seu engajamento nas lutas sociais e solidariedade em prol da classe trabalhadora da região.

Vila Palmares,um bairro popular, encravado nas divisas de Santo Andre,São Bernardo e São Caetano era a sintese destas cidades operarias, foi o local escolhido pelo bispo,para que se instalasse a primeira Fraternidade dos Irmãozinhos de Jesus, em casa simples,adquirida pela diocese,na Rua Indianopolis 86, onde hoje construiu-se sobre os alicerces da antiga residencia uma Capela de didicada a São João Batista.

Os primeiros religiosos a integrarem a Fraternidade foram o brasileiro Francisco Pacheco que na epoca era carpinteiro e o frances Roland, que era metalurgico e trabalhava em uma fabrica nas cercanias,posteriormente vieram outros irmãos a saber Guiy Maurice Norel,Marc Saint Marie,Serafim Lana Moura,e Remi todos operarios.

A casa onde instalou-se a fraternidade,era simples,dividida em dois comodos na frente e outros dois nos fundos com um sanitario comum...sendo que o comodo da frente era utilazado como uma capela rústica e ao mesmo tempo aconchegante.A vizinhança era formada por casas de familias muito proximas umas das outras...

Os irmãos relacionavam-se com os vizinhos de maneira acolhedora e muito amiga, e os adultos e as crianças sempre estavam por ali conversando.Relacionavam-se tambem com pessoal da comunidade paroquial próxima e eram vistos com frequencia nas missas da Capela Nossa Senhora das Graças do bairro vizinho, onde os moradores da Vila Palmares tambem frequentavam, e foi onde meu pai João Padovani e minha mãe Helena os conheceram,e os irmãos tornaram-se muito amigos e passaram a frequentar a casa de meus pais. Com o passar dos anos a Vila Palmares cresceu rapidamente então foi criada uma nova paroquia pelo bispo diocesano, Dom Jorge Marcos. Outro foco de relacionamento dos irmãos eram os companheiros de trabalho e e seus amigos, que passaram a ser frequentes na Fraternidade, além de inúmeros visitantes oriundos de várias partes do pais e até do exterior, que queriam conhecer de perto essa nova modalidade de vida religiosa junto ao povo pobre e simples!

Fato curioso, foi que o Irmão Francisco resolveu mudar de profissão e ser pedreiro, foi aprender com meu tio Antonio o oficio, trabalhando como servente de obras e sendo seu parceiro por longo tempo,ate que finalmente dominou a arte.

Houve um movimento no bairro para a fundação da Cooperativa Popular de Consumo de Vila Palmares, onde o Irmão Francisco teve participação muito ativa e junto com  o grupo liderado por Salvador Vegas, um anião, oriundo do Partido Comunista, Leonas Benvindas oriundo da Acão Catolica, e mais Waldomiro,Arlindo,Marinice,Chiquinho,entre outros, inclusive eu que fui o primeiro secretário, escolhido porque, segundo eles minha letra era bonita. Reunido o  pequeno grupo, procuramos através do Irmão Francisco,e tivemos o apoio de um pastor Metodista de São Paulo, Prof. Teodoro Maurer, autor do livro COOPERATIVISMO, e da Federação das Cooperativas Populares de SP. Fizemos um grupo de estudo sobre o cooperativismo e de como organizar uma cooperativa. Num segundo momento fomos a luta para conseguirmos um número mínimo de cooperados para que fosse viável o projeto,assim chegamos a cerca 150 sócios que passaram a contribuir mensalmente com uma quantia para a formação do capital inicial. Na sequencia alugamos um salão na rua Mamede Rocha e abastecidos pela citada Federação, com grande entusiasmo inauguramos o nosso primeiro armazém que funcionou durante três anos neste local. No bairro alguns comerciantes reagiram rapidamente e começaram a concorrência com faixas que anunciavam aqui “preços de cooperativa”. Mas havia um inimigo oculto a nos combater “as famosas cadernetas de vendas a fiado” que faziam reféns a maioria das famílias de Vila Palmares.Foi uma experiência bastante educativa e proveitosa para nós que participamos deste projeto popular, porem depois de alguns anos capitulamos!

Corriam os anos de chumbo, pois estávamos em plena Ditadura Militar e Vila Palmares era um polo de resistência dos trabalhadores, sendo que a Igreja de Nossa Senhora das Dores, tinha como pároco o Pe. Rubens Chansseraux engajado na luta do povo e que foi preso várias vezes, tambem bastante ligado a Fraternidade e junto com os irmãozinhos davam apoio moral e financeiro as famílias dos vários trabalhadores engajados nas lutas populares e que encontravam-se presos ou exilados.

Perto da Fraternidade tinha uma casa de oração evangelica, onde Francisco ia algumas vezes e rezava com eles, e ao final o pastor sempre perguntava a ele: Se tinha aceito Jesus?  Ao que ele respodia: Sim aceitei e já fazia tempo!

Os irmãos não tinham atividades pastorais, mas somente presença e solidariedade com a parcela da igreja mais pobre!

Lá pelo ano de 1976 o Irmão Francisco mudou-se para o Nordeste, precisamente para a cidade de João Pessoa, na Paraiba, sendo acolhido por Dom Jose Maria Pires, Arcebispo da Paraiba, o Dom Pelé, que criou a Fraternidade na periferia no bairro do Alto do Céu, onde por uma temporada minha mãe Helena Padovani foi coabitar com os irmãos participando de uma nova experiência de vida religiosa.


Tomas Jose Padovani

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Massacre






Em Pau D'arco 
do Grão Pará
numas terras distantes
 de vistas a se perderem...
dez jovens camponeses
com verdes sonhos
de terras repartidas!

C'os braços fortes 

a terra lavraram
na esperança de um dia
 muitos frutos colherem
vendo as familias sadias 
crescendo e vivendo em paz!

No dia da varredura 
com fé e coragem
 defenderam na valentia 
o pedaço de chão conseguido
nos seus corpos sangrados 
 a balas executados
em covas razas dormiram!












quarta-feira, 24 de maio de 2017

DIA DOS PAIS

Pai nosso que estais no céu...

Primeiramente lembro-me de meu pai, 
que já finou-se no ano 1970,
foi pai,amigo,trabalhador,palmeirense...
e do  tio Manoel (irmão do pai)
deficiente físico,alfaiate,
exemplo de honestidade, 
compromisso e de superação!

Dos pais da minha infância, 
lembro-me do Irmão Mario (nds)* 
sacristão da Igreja São José do Ypiranga
que tornou-me coroinha 
e teve muita paciência com o menino moleque que fui 
e do Padre Luigi Pellegrino (nds)*
que ensinou-me duas coisas:
ler  livro no ônibus em posição correta, 
e chupar laranjas sem descasca-las!
além de levar-me todas as quintas-feiras
 para a chácara de Guarulhos.

Dos pais da minha juventude 
que gastaram tempo comigo 
em minhas indagações juvenis:
Padre Tomas S. Palácios**
que no dia que completei o curso primário
 presenteou-me com um abridor de livros de prata
e mandou-me para o seminario.
Do EngºJosé Benzi que iniciou-me
na arte do desenho e da arquitetura,
e de tantos outros que foram pais
por dias,horas,ou momentos...
Também sou pai,sem ter gerado,
mas por adoção de meus filhos
que hoje também são pais...
(e eu avô de uma neta e três netos)

Fui pai de tantos outros
que cruzaram em meu caminho
de uma forma ou de outra,
que hoje também já são pais...
uns são gratos,outros indiferentes,
outros ainda esquecidos...
o importante é que fui,sou e serei 
ainda pai de tantos quantos
a mim se achegarem!




*    Notre Dame de Sion (nds)
**  Sacerdote Espanhol que foi Vigario Paroquial em SCS de 1955 a 1963

NELSON DOS REIS (In memoriam)

Corria o ano de 1980, o Brasil vivia tempos de “abertura política” e a ditadura militar ia chegando ao fim, respirava-se um ar de esperanças, e o ABC Paulista vivia momentos de movimentação sindical,política, social,econômica, etc...
Nesta época eu fazia um curso de Teatro na Fundação das Artes de São Caetano do Sul,quando o famoso e reconhecido bailarino e coreografo Klaus Viana ministrou uma Oficina de Dança a todos os estudantes de Artes Cênicas e aos Grupos de Teatro Amador do ABCD, quando conheci Nelson dos Reis, jovem ator e militante político/cultural que naquele momento era presidente da FEANTA-Federação Andreense de Teatro Amador , alem de trabalhar no DEPEC – Departamento de Esporte e Cultura de São Caetano do Sul como animador cultural.
Na época eu residia em São Bernardo do Campo,palco da cena política do Brasil, com a emergente liderança do LULA e da criação do Partido dos Trabalhadores e lá estava também o incansável Nelson dos Reis participando do ABCD- Sociedade Cultural,uma entidade criada a partir do Fundo de Greve do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC, e que promovia varias atividades,tais como jornalismo,assistência jurídica,ação cultural,etc todas estas atividades sem fins lucrativos e realizadas por voluntários, militantes e de várias colorações ideológicas.Neste espaço cultural havia um Grupo de Teatro Amador , animado pelo diretor Lineu Constantino,que ministrava oficinas de preparação de atores,visando futuras montagens teatrais , mambembes e voltadas a população da região.Nelson era um dos lideres do grupo e convidou-me a participar,convite aceito  passei a integrar a trupe, e veio nossa primeira montagem,a partir de uma criação coletiva que se intitulava A INCRÍVEL HISTORIA DO HOMEM QUE VIROU CÃO ,  contava a historia de um desempregado que no limite das necessidades aceitou o “emprego” de cão de guarda de uma fábrica e metamorfoseou-se em cachorro, e o ator principal foi o Nelson que impressionava pelo desempenho, alem da Kátia que era a esposa assustada, o Bráulio que fazia o coringa,o Kioshi que era a banana ambulante,o Paulo o pregador de rua , o China um metalúrgico e eu o patrão etc... e assim nossa comedia rodou vários bairros , perfazendo 82 apresentações,fazendo rir e se possível fazendo pensar,seguindo a proposta de Brechet.

Ao lado de toda esta movimentação ia sendo criado o PT e o espaço que utilizávamos para ensaios era o espaço do Diretório Provisório então a convivência era mútua e os ideais eram comuns, ai o Nelson foi o primeiro a se filiar, eu o segundo e na sequência nós todos...um fato muito interessante,terminado os ensaios aos sábados nos reuníamos no bar do Paraquedas, na Praça Lauro Gomes,e numa noite destas encontramos Julio de Gramont e o Augusto, que organizavam a eleição do primeiro Diretório e tinha concebido uma bandeira para o PT que consistia eu um retângulo vermelho com uma estrela ao centro e ao meio a sigla PT...tomavam uma cerveja e tentavam rascunhar uma estrela, só que era de seis pontas, a de David, então  pediram ajuda, a mim e ao Nelson ,pois a estrela tinha que ter só cinco,eu que na época era desenhista e tirei de letra...ai recebi uma tarefa desenhar o rascunho da bandeira,que depois foi levado para a esposa do LULA , a Marisa Letícia que a confeccionou em tecido e esta bandeira ficou por muito tempo na parede da sala onde ensaiávamos e o Nelson sempre a reverenciava respeitosamente, pois tinha muita fé no nascente PT. Lembro-me também da primeira candidatura do LULA em 1982 para o Governo de SP,cujo lançamento foi na Praça Lauro Gomes,numa noite fria e garoenta onde o Nelson entusiasmado empenhou-se de corpo e alma na preparação e realização do evento, e ao final sorria feliz,pois tínhamos tido um publico de umas 5 mil pessoas.O tempo foi passando, a nossa convivência sempre muito próxima, conversávamos muito sobre tudo e todos, concordávamos ou divergíamos, mas uma coisa sempre deixava tudo em paz, o Nelson e seu violão , sempre a tira colo... e a primeira canção era Preta,Pretinha eu vinha te falar...musica que todos cantávamos.Ai veio a opção pelo jornalismo,entrou na Faculdade Casper Libero, e as vezes perdendo a hora,pedia-me uma carona de SBC ate a Av. Paulista , e eu de moto e ele na garupa cortávamos voando a Via Anchieta e num instante chegávamos lá.Nelson era poeta também, conseguiu com recursos próprios editar seu primeiro livro de poesias e alegria foi imensa,muitas comemorações com cervejinhas e o hambúrguer do Paraquedas até altas horas!
O tempo foi passando e lá estava o Nelson já formado e trabalhando na Editora Ática como editor onde entre centenas de títulos promeveu a publicação do livro "PT a Lógica da Diferença", da brasilianista norte americana Margaret E. Keck em 1991 quando o ajudei no lançamento do livro no Saguão do Teatro Municipal de Santo André-SP com as presenças da autora,do Lula e do saudoso Celso Daniel,então prefeito da cidade em seu primeiro mandato.
Tempos depois,Nelson sempre arrojado junto com sua esposa Rosa Zuccherato e do saudoso Luiz Bagio, fundaram sua própria editora, a Nova Alexandria, que hoje já é uma referencia e um legado à cultura e à inteligência dos brasileiros.Saudades!

JORGIN & MANUELIN

Tudo ia bem na bucólica Albertina,cidadezinha do interior,com a vida pacata de seus habitantes, quando apareceu por lá, Jorgin, um desses andarilhos de estrada, esfarrapado, sem eira nem beira,que resolveu dar uma paradinha em sua vida errante, estabelecendo-se debaixo da ponte do Rio Turvado, que cortava a cidade bem ao meio. Jorgin saia pelas ruas perambulando, a esmolar , apelando a caridade publica, por um pedaço de pão ou uma roupa surrada...as vezes davam-lhe moedinhas,que juntando-as dava para comprar uma garrafa da maldita branquinha, água que passarinho não bebe, mas que aquece as madrugadas frias.
Uns achavam-no um coitado, outros ainda nem tomavam conhecimento de sua existência por lá, mas tinha os que incomodavam-se com ele e enxotavam o vagabundo, que detestava a ideia de trabalhar, só de pensar nisso já arrepiava-se todo,gostava mesmo era de viver solto,sem regras,etc...
Como sabem, as cidadezinhas do interior,possuem sempre uns personagens, assim excêntricos, quase folclóricos,que dominam a cena, um pouco doidos, conhecidos por todos...em Albertina não era diferente.
Manuelino um homem de uns quarenta e tantos, desde sempre encarnou o guarda noturno da cidade,andava de uniforme caqui, herança do avô que tinha sido soldado constitucionalista em 32,uma lanterna de pilhas e um apito, ganho de um juiz de futebol,que por lá passara algum dia. A noite era dele,punha ordem em tudo e em todos...os namorados, que atras da matriz trocavam juras de amor, nada convencionais que o digam, ninguém o contrariava, faziam de conta e pronto.Uma noite destas resolveu inspecionar debaixo da ponte e tomar satisfações do tal do Jorgin, que já meio bêbado dormitava, com um olho aberto e o outro fechado,   e de pronto, iluminando a cara do dito cujo com sua lanterna, foi logo gritando e dando ordens explicitas para que sumisse da cidade, ao que Jorgin num impeto de fúria atacou Manuelino com uma pedrada na cabeça e empurrou-o rio abaixo,e o afogou nas águas turvas e voltou tranquilo, pro seu cantinho, esperando que a correnteza levasse rio abaixo o corpo do infeliz para bem longe dali.
Desaparecido Manuelino,a cidade inteira deu por sua falta e logo a noticia correu de boca em boca e começaram a procura dele por toda a parte, até que dois dias depois seu corpo de afogado e ferido, fora encontrado por um pescador, entalado numa curva do rio. Ninguém em Albertina teve dúvidas, de quem teria sido o autor do assassinato, só poderia ser o vagabundo da ponte, e assim foi o delegado e dois praças para lá e prenderam Jorgin, que não negou a autoria do acontecido, mudando-se agora para a cadeia local.
Aberto o inquérito e caracterizado o homicídio qualificado correu processo no forun local.
A vida para Jorgin tinha melhorado sobremaneira,cafe da manhã, quentinha no almoço e jantar, alem das regalias de um teto,cama e banho...para quem debaixo da ponte tiritava de frio a noite estava bom agora, só sentia saudades da branquinha,nada é perfeito!Sr Delegado,até arrumara terno, gravata e sapatos, para que Jorgin ao apresentar-se ao Juiz convenientemente vestido.
A morte trágica de Manuelino, muito querido que era,  revoltou a população e dividiu as opiniões, com aproximação do julgamento, uns achavam que o réu deveria pegar trinta anos e morrer na prisão, outros achavam o contrario que deveria ser liberto para voltar a passar fome e frio e ser expulso da cidade.
Chegado o grande dia do julgamento,o povo todo ouriçado lotou o plenario do Forun para assistir, tudo preparado,advogados de acusação e defesa,jurados,testemunhas, entrou o Juiz de toga e martelo, pediu silencio e que se apresentasse o réu.
Surpresa geral,entra o delegado, que deveria ter conduzido Jorgin da cadeia para o banco dos réus e comunica ao Juiz diante de todos:Jorgin esta morto,fora picado por uma cascavel durante a noite!

ACIDENTE DUPLO

Alto verão, manhã quente,periferia de São Paulo, e o Edimilson, peão migrante, do nordeste, caminha pela calçada , subindo a Av. Baronesa de Cocais , rumo ao seu barraco, logo acima...absorto em suas lembranças, quando um caminhão do depósito de materiais, numa manobra de ré, atropelou o Edimilson, que com o golpe recebido caiu desacordado ao chão duro do asfalto quente, transeuntes que por ali passavam socorreram o acidentado, mas desconfiaram que de nada valeria, pois aparentemente já estava morto.
Acionada a policia, foram feitos os procedimentos de praxe, e constatada a morte , os policiais acionaram a presença da Policia Cientifica e a remoção do corpo pelo Serviço Funerário.
Enquanto isso o povo foi rodeando o corpo do rapaz, alguém providenciou jornais para cobri-lo e amenizar a exposição do corpo. O transito no local ,ficou um caos, todos os carros paravam para verem o acontecido. A policia montou guarda para preservação da cena e do corpo do pobre Edimilson, que quando vivo nunca mereceu atenção devida, sem parentes ou amigos, agora era alvo do publico, pois curiosidade mata!
Passaram-se horas e a Policia Cientifica não chegava para documentar o acontecido, o corpo continuava ali, o sol do meio dia era escaldante, torrava as cabeças das pessoas e fumegava no asfalto.
Lá pelas tantas aparece uma velhinha que piedosamente acende uma vela para o defunto, o policial estressado que montava guarda fica meio preocupado, mas respeita. Nisso aparece um moleque estabanado que querendo ajudar, tropeça e derruba a vela acesa, nisto os jornais que cobriam o corpo,rapidamente pegam fogo, queimando o morto, que num sobressalto dá um pulo e levanta-se.
O povão ao ver a cena grita, o policial de prontidão saca da arma e dá um tiro na perna do Edimilson que cai sangrando...mais gritos do povo!
O rabecão da funerária que ali estacionado aguardava para levar o defunto para o necrotério, muda o destino levando as pressas o Edimilson para o hospital.
Assim terminou o dia do nosso herói. Que azar, mas que sorte!

O BIGODE

Desde a adolescência , vivida lá pelos anos sessenta, Antônio barbeava-se religiosamente a cada três dias, extraindo toda penugem dos anos verdes até os pelos mais consistentes da maturidade, seguindo a regra: cara limpa, lisinha.
Perto de completar anos, recebeu de um amigo querido,um pedido inusitado:
-Deixe crescer a barba e o bigode.
A principio Antônio não gostou muito da ideia, mas como amigo a gente não decepciona nunca, lá foi deixando de barbear-se, barba e bigode cresceram rápido, tomando volume...uma semana, um mês e nosso herói mirava-se no espelho e não apreciava muito o que via, envelhecera muito com aquela barba branca, começava a parecer papai noel, mas estava gostando do bigode, ai teve uma ideia, passou uma máquina zero em tudo que ainda restava de cabelo e barba, deixando apenas o cavanhaque e bigode brancos. Foi mantendo o visual, mas o tal do bigode e o cavanhaque foram crescendo rápido, encorparam-se, imensos dando  para enrolar em cachinhos... Antônio começou a preocupar-se, precisava dar um jeito naquilo, mas tinha medo de por tudo a perder, foi deixando crescer, os lábios desapareceram, a sopa noturna sobrava caudalosamente nos cantos da boca, o café com leite matinal tingiam o esbranquiçado...corria lavar, secar, pentear e nada!Uma voz interior lhe dizia:
-Antônio você precisa tomar uma providencia urgente: ou trata bem deste bigode e cavanhaque ou desiste e navalha tudo!
Nestas horas, sempre aparece alguém para ajudar, um colega de trabalho, vendo o desespero do companheiro aconselhou:
-Procura o Heitor, ele vai dar um jeito nisso!
E lá foi o Antônio procurar o Heitor, um ex-surfista, quarentão, todo proza. 
Expostas as angustias do paciente, ouvidas com atenção e examinado o caso, Heitor exclamou:
-Tenho a solução!
Armou-se de ferramental adequado e deu inicio a operação de salvar o bigode e o cavanhaque, ordenando ao nosso amigo, sente-se na cadeira,tire os óculos, mantenha a espinha ereta, a cabeça quieta e a boca fechada, pois a situação é delicada, qualquer vacilo pomos tudo a perder, mas antes fez uma pergunta:
-Serviço tradicional ou inovador?
Antônio de pronto respondeu, tradicional, pois o amigo lá do inicio da estória, que fizera o pedido, era de perfil conservador, assim meio germânico, um tanto inflexível, mas com muita prontidão!
Trinta minutos depois, Heitor pediu:
-Coloque os óculos e veja se ficou bom?
Antônio ao ver-se no espelho ficou aliviado, pois o resultado era melhor do que o esperado.
-Quanto lhe devo?
-Dez  reais, para ficar cliente.
-Até o mês que vem Heitor, obrigado!
Antônio saiu aliviado e foi para casa, feliz da vida, e ao chegar em sua garagem, deparou-se com seu vizinho, um caminhoneiro cinquentão, que após um cumprimento, exclamou expontaneamente:
-Seu Antônio, como o senhor ficou jovem!
Antônio corou-se todo, e rapidamente subiu as escadas, entrando em casa.

O PADRE SUMIU

No domingo, já tarde da noite, terminada a quermesse, da festa junina paroquial, que  tinha sido um sucesso, com muita gente,musica,barraquinhas,e o tradicional churrasco,Padre José,um tanto cansado,despediu-se do sacristão e foi recolher-se na casa paroquial,sem antes lembrar-lhe,de seus cachorros.
No dia seguinte,o sacristão abriu pontualmente a igreja e badalou os sinos,enquanto alguns fieis vieram para a missa da segunda feira,tradicionalmente dedicada as almas e passada meia hora do horário, o Padre José não aparecera para a celebração e os fieis já inquietos com a demora acionaram o sacristão que andava de um lado a outro inquieto,e que por sua vez mandou o coroinha até a casa do vigário para saber o que havia acontecido.O moleque foi num pé e voltou no outro com a noticia de que o padre e nem seu carro, um velho corcel azul, estavam lá.
Pronto, a noticia espalhou-se rápido,o Padre José sumiu.Onde estaria?Fora sequestrado?Vitima de ladrões?
Foram logo avisando a policia,que registrou o desaparecimento e deu inicio as buscas pelos arredores e nada.Acionaram o Bispo e em sua presença o delegado arrombou a porta da casa paroquial, onde nada fora mexido e nem sinal do padre.Nem vivo,nem morto!
Procuram daqui e procuram dali, três dias depois,acharam o carro do Padre Jose no estacionamento da rodoviária local,e do qual exalava um cheiro forte de putrefação vindo do porta malas.Dado o alarme pela policia,o povo tomou conta do local,todos queriam ver,curiosidade mata!
Chegando o delegado o porta malas foi aberto na presença de todos e qual não foi a surpresa,não havia corpo nenhum,mas sim um saco plástico cheio de ossos e restos de carne do churrasco de domingo que o sacristão havia posto ali para os cachorros do padre.
O mistério continuava, onde estaria o vigário?
Todos perguntavam e queriam saber...passaram-se seis dias do desaparecimento, e nada do Padre Jose,nem noticia boa e nem ruim, simplesmente sumiu!
-Teria largado a batina? Especulam as devotas.
-Mas o carro não saíra da cidade! Afirmavam os detetives de plantão.
No domingo seguinte,seis horas da manhã,chega na  rodoviária o ônibus noturno,vindo do norte de Minas e Padre Jose apressado desembarca e vai a procura de seu velho corcel azul que havia deixado estacionado, não o achando, decidiu por um táxi,pois queria chegar a tempo para a missa dominical das sete horas da manhã.Aos fieis, na hora do sermão, justificou-se: viajei as pressas, para a casa de minha mãe,em Minas,que em agonia aguardava-me para partir deste mundo! Deus a tenha!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Irmão






Um homem 
jovem e doente
morador de rua 
a mão  estendia
em agonia.

Morreu sem ajuda
na madrugada fria
ao lado de uma livraria
quem passava 
não via!